Requium por Paulo Gouveia, Arquitecto dos Açores

Todos nós sabemos que os maiores inimigos dos açorianos são… os próprios açorianos.

Nativo que pretenda vingar na política, na ciência, nas artes, etc, quem deseje ter nome (o que é humano e desejável) deve arredar-se desta terra e fixar-se lá fora; aqui vindo ora em descansos ora em trabalho. Quantos intelectuais independentes e satisfeitos com as respectivas vidas cá estão?

Por fatalidade recomeço alguma escrita recordando o recente falecimento dum quase apagado arquitecto e biólogo (apagado por exigência do próprio) mas personalidade que irá perdurar nas referências da arquitectura nacional , ou seja, Paulo Gouveia, nascido a 10 de Julho de 1939 na ilha Terceira e falecido, após um ano de coma, a 4 de Novembro de 2009.

Conhecemo-nos em tempos liceais. Os seus contactos com José Agostinho, o sábio dos sábios, durante décadas, nos Açores, empurraram-no para a Biologia até porque praticava desportos náuticos diversos, desde o mar alto às mais reentrantes calhetas. Formou-se em Coimbra e conviveu com meu irmão António, em Medicina. Ambos não largavam histórias das ilhas mas tiveram a coragem de reagir às tentações do regresso.

A biologia de então (anos 60) entristeceu Paulo Gouveia e as viagens e as amizades empurraram-no para a arquitectura, então mais arte e gosto do que o aterrorizante mister comercial destes modernos tempos. Licenciou-se em Lisboa, em Arquitectura, e andou pela Politécnica, onde eu já me encontrava a leccionar.

Ali tomou contacto com as formas vulcânicas, com os materiais gerados nas profundezas da Terra e com o desabrochar do conhecimento vulcanológico. A ilha do Pico cativava grande parte dos seus tempos e ansiava trabalhar naquele altíssimo penedo.

A sorte chegou quando o convidaram a desenhar o Museu dos Baleeiros das Lajes do Pico, em 1986. Outra sorte arribou com novo convite para o Museu do Vinho, nos arredores da Madalena do Pico onde um mirante de madeira permite observar duas ilhas que se separaram pela geologia mas que se unem pela oceanologia.

Em S. João recuperou umas pequenas ruínas de casa rural para observar a grandiosa corcunda da montanha do Pico e o seu lago de lava do ano 650 da nossa era—“-aquilo” (a montanha pregada a nós) fascinava-o .
Para o museu das Lajes o que Paulo Gouveia viajou, falou, recolheu, desenhou! Baleeiros do Pico e de S. Jorge. Homens de New Bedford. Ajudas de João Afonso, da Terceira, idas ás Flores de Jacob Tomás. Carpinteiros de Santo Amaro do Pico. Tanto tombo em viagens na ânsia do detalhe, do rigor, do perfeito. O seu colega Paulo Varela Gomes, na grandiosa obra “Arquitectura - os últimos vinte e cinco anos”, editada em 1977, considera as concepções de Paulo Gouveia como emblemáticas,”sui generis”, “hiperrealistas (!!).

Paulo Gouveia, arquitecto tardio na formatura mas avançado no saber e no bom gosto, pioneiro na novidade existencial” versus” costumes açorianos do passado ( sem arquitectos) abandonou-nos neste mundo mas deixou obra inigualável quer nas províncias do continente quer nesta província do Atlântico, sua nossa terra.

Como sou apenas um geólogo e jamais um crítico de arte (já sendo entusiasmante apreciá-la) é com pesar que não o vi ligado (apesar das minhas insistências ) às comemorações do famoso Vulcão dos Capelinhos, paradigma da Vulcanologia dos Açores onde actualmente o “ hightech “ dos plasmas e dos computadores disfarça o hiporrealismo reinante e impingido com aplausos de desinformados, inverso do hiperrealismo que brotou dum exagerado auto-modesto conterrâneo.

Perdemos uma oportunidade.

Que a Eternidade o consagre!

Victor Hujo Forjaz
Correio dos Açores, 10 de Novembro de 2009

0 comentários:

Enviar um comentário